Belo Monte, um grande desafio e muitas externalidades na sua construção

Por Nivalde de Castro.

Artigo publicado pela Agência CanalEnergia em 25 de fevereiro de 2011 (Clique aqui acessar o PDF).

Uma importante empresa estatal de comunicação internacional alemã – Deutsche Welle – pediu à coordenação do Gesel um pequeno e objetivo artigo sobre Belo Monte. Como reza a tradição de liberdade de imprensa alemã, não impôs qualquer condição e orientação sobre a abordagem a ser dada e tratada.

Entendeu-se que o interesse maior para um europeu sobre tema tão polêmico seria conhecer as razões que levaram o governo brasileiro a tomar uma decisão que iria provocar forte reação dos grupos internacionais ambientalistas, desde Avatar até WWF.

A matéria sobre Belo Monte foi publicada (ver aqui), mas somente o parágrafo final do artigo foi aproveitado.

Em função do esforço analítico despendido, mas acima de tudo procurando contribuir com os argumentos que sustentam a decisão de construir a terceira maior central hidroelétrica do mundo, a versão integral do artigo é apresentada com alguns ajustes.

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O Brasil, como qualquer país do mundo, em especial com a sua dimensão continental e os desafios para superar em especial no campo social, busca através de sua política energética atender ao aumento da demanda de energia elétrica conciliando três variáveis:

1. Garantir o aumento da oferta de energia elétrica. Através de novas centrais elétricas construídas em perfeita articulação com a expansão da demanda evitando desequilíbrios, ou seja, interrupções e apagões;

2. Autonomia energética. Priorizar os investimentos em centrais elétricas que usem ao máximo recursos energéticos nacionais, restringindo importações que impactam a balança de pagamento e deixam o país dependente de outros países e da estabilidade política internacional (como é o caso do petróleo e gás natural para os países da União Europeia, por exemplo);

3. Mitigação do impacto ambiental. A ampliação da oferta de energia elétrica tem que se dar com o mínimo impacto ambiental possível. Deve-se aqui buscar o equilíbrio entre a necessidade crescente e imperiosa de eletricidade versus o respeito à legislação ambiental.

Tendo estas prioridades como pano de fundo analítico, o Brasil vem priorizando a exploração do seu potencial hidroelétrico – estimado em mais 200.000 MW – por ser um recurso totalmente nacional e de baixo custo médio. O único risco desta fonte de energia é o hidrológico: chover ou não chover. Do ponto de vista dos impactos ambientais, eles são localizados no entorno da unidade geradora. O Brasil desenvolve, em velocidade crescente, novas tecnologias e processos para mitigar os impactos ambientais, sociais e econômicos como se pode observar nas UHE de Santo Antônio e Jirau. E por último, um fator muito importante é que hoje o Brasil está construindo as centrais que irão gerar a energia elétrica mais barata, situando-se em torno de US$ 45 o MWh, podendo ser considerado o de menor custo mundial.

As críticas que o Brasil recebe de organizações ambientalistas por tomar a decisão estratégica de priorizar e construir centrais hidroelétricas como Belo Monte não têm considerado o esforço de investimento em tecnologias e ações para mitigar o impacto ambiental, social e econômico. Atualmente na construção de uma central hidroelétrica cerca de 10% do custo total de empreendimentos, que somam bilhões de dólares, são aplicados nas rubricas de preservação ambiental, econômica e social. Em Belo Monte estima-se um custo ambiental superior a US$ 1,6 bilhão.

Esta estratégia de priorizar as centrais hidroelétricas vai ser mantida como um dos principais objetivos da política energética do Brasil, na medida em que o país precisa a cada ano de 6.000 MW de nova capacidade instalada. E seguindo a experiência e histórico de outros países, notadamente da Europa, irá aproveitar, no máximo possível, todo o imenso potencial hidroelétrico que o Brasil tem, apoiando-se e sujeitando-se a uma das legislações ambientais mais rigorosas do mundo.

Belo Monte será a terceira maior central hidroelétrica do mundo com 11.500 MW de capacidade instalada. Para mitigar o impacto ambiental, notadamente aquele que causa um dano irreversível ao meio ambiente que é a formação do reservatório, será adotada a tecnologia de construção de uma central do tipo fio d´água, onde os quilômetros quadrados alagados são reduzidos ao máximo, e as unidades geradoras são do tipo bulbo (que ficam deitadas), acionadas pelo movimento-fluxo das águas do rio. Esta central hidroelétrica irá beneficiar mais de 10 milhões de famílias pelos próximos 50 anos ao menor custo do MWh em construção no mundo atual.

Nestes termos, e a título de conclusão, qualquer país do mundo que tivesse este potencial hidroelétrico ao seu dispor, capaz de produzir eletricidade com o mais competitivo custo por MW internacional, que beneficiaria mais de 15 milhões de residências, por um prazo tão longo, adotando práticas ambientais rigorosas, teria tomado a decisão de política energética que o Brasil tomou: construir Belo Monte.

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