A Disputa pela Eletropaulo

Por Nivalde de Castro, Roberto Brandão e Francesco Tommaso.

O artigo foi publicado pelo serviço de informação Broadcast da Agência Estado de São Paulo em 25 de abril de 2018 (Clique aqui acessar o PDF).

A acirrada disputa pelo controle acionário da Eletropaulo explica-se por vários motivos, sendo o mais relevante o controle da concessão da mais rica e próspera área econômica do Brasil (e da América Latina!), com 18 milhões de consumidores e cerca de R$ 21 bilhões de faturamento anual. Quem ganhar a disputa – provavelmente Enel ou Neoenergia – vai se tornar um dos principais players do Brasil, tendo como principal competidor a CPFL, do grupo chinês State Grid.

Uma outra motivação está diretamente relacionada com a gestão do grupo AES, que detém a concessão da Eletropaulo desde a sua privatização. A AES priorizou uma gestão mais financeira, com maior foco na distribuição de dividendos, não fazendo os investimentos necessários e condizentes com uma área economicamente tão dinâmica. Os resultados deste tipo de gestão foram (i) a queda na qualidade do serviço, medido por indicadores de frequência e duração de interrupções; e (ii) tarifas relativamente menores determinadas pela ANEEL nos transparentes processos de revisão tarifária, por falta de investimentos e qualidade abaixo da média. Trata-se, assim, de um círculo vicioso que, em última instância, explica a saída da AES como controladora da Eletropaulo.

Por outro lado, dois atores vão ganhar a mudança do controlador, seja ele da Espanha ou da Itália. O primeiro ator serão os consumidores, pois a nova gestão que se imporá será centrada na gestão técnica e operacional, permitindo uma nova e ascendente trajetória de melhoria da qualidade dos serviços de distribuição, processo este de estímulo e sinal econômico dado pelo marco regulatório sob a égide da ANEEL. Obviamente, as tarifas serão majoradas em função do aumento dos investimentos, mas, em contrapartida, a melhoria se fará presente, diminuindo as perdas produtivas e de bem-estar que as interrupções, demoras no restabelecimento de energia, variações de tensões, etc. causam aos paulistanos.

O segundo ator a ganhar, curiosamente, é a Energisa, maior grupo privado do Setor Elétrico Brasileiro, tradicional e centenário, que vem surpreendendo o mercado deste a vitória sobre a CPFL na disputa pelo controle do então Grupo Rede, à época em recuperação judicial.

Merece ser destacado e elogiado que a Energisa mudou a lógica da disputa pelo controle da Eletropaulo, levando-a para o mercado de capitais através de uma OPA, onde as regras são mais transparentes, claras e objetivas. Neste movimento, a Energisa levou os dois grupos internacionais a uma disputa envolvendo de R$ 4 a 5 bilhões.

Com alta certeza, o grupo vencedor da disputa terá tantos desafios e investimentos com a reestruturação da Eletropaulo que enfrentará dificuldades e desestímulos em participar do leilão das distribuidoras do Grupo Eletrobras.

Como, em um futuro próximo, o leilão destas distribuidoras deverá ocorrer, em função da gravíssima situação de desequilíbrio econômico e financeiro que se encontram, o Grupo Energisa com a proposta da OPA retirou um concorrente de peso e, desta forma, posiciona-se de forma mais estratégica e competitiva para a disputa por parte do espólio da Eletrobras.

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