ūüé• Tecnologias exponenciais quebram paradigmas do Setor El√©trico

Por Nivalde de Castro, Adriana Gouv√™a, Bianca Castro, Lorrane C√Ęmara e Matheus Guerra.

Artigo publicado pela Agência CanalEnergia, em 11 de julho de 2019 (Clique aqui acessar o PDF).

A pesquisadora Lorrane C√Ęmara faz um breve resumo do artigo.

O Setor El√©trico vem passando por transforma√ß√Ķes tecnol√≥gicas expressivas, que est√£o alterando in√ļmeros dos seus paradigmas tradicionais, marcados, por exemplo, pelo papel passivo do consumidor final, pelo fluxo unidirecional de energia el√©trica e pela gera√ß√£o centralizada. Neste contexto de metamorfose, destacam-se os Recursos Energ√©ticos Distribu√≠dos, gera√ß√£o distribu√≠da, resposta da demanda, medidores inteligentes, armazenamento de energia atrav√©s de baterias e ve√≠culos el√©tricos, tecnologias que v√£o determinar mudan√ßas disruptivas no Setor El√©trico. Em fun√ß√£o do seu poder de transforma√ß√£o e da sua din√Ęmica de difus√£o, s√£o consideradas tecnologias exponenciais e, algumas delas, ser√£o analisadas de forma resumida em seguida.

A ruptura das bases que marcam os paradigmas tradicionais, como √© o caso da transforma√ß√£o do consumidor passivo para um cliente ‚Äúempoderado‚ÄĚ est√° diretamente relacionada √†s inova√ß√Ķes tecnol√≥gicas introduzidas na sociedade nos √ļltimos anos. Como exemplo podem ser citadas a difus√£o dos aparelhos celulares, as intera√ß√Ķes atrav√©s das redes sociais, a internet das coisas, dentre outras, tornando os consumidores mais conectados e exigentes no que diz respeito √†s presta√ß√Ķes de servi√ßos p√ļblicos e privados. Especificamente no Setor El√©trico, merecem ser destacados dois principais vetores e impulsores da passagem do consumidor passivo para cliente ativo: a gera√ß√£o distribu√≠da e a liberaliza√ß√£o do mercado varejista de energia.

Na gera√ß√£o distribu√≠da, os consumidores recebem energia de forma passiva da rede de distribui√ß√£o, mas tamb√©m geram energia para atender parte de sua demanda. Os eventuais excedentes s√£o injetados na rede de distribui√ß√£o. Este din√Ęmico e irrevers√≠vel processo criou a categoria de prossumidores, abrindo um novo cen√°rio de a√ß√£o mais ativa dos consumidores.

Na liberalização do mercado varejista, há a separação entre as atividades e negócios de distribuição e de comercialização de energia. Esta nova realidade reforça o processo de metamorfose do consumidor, que já ocorre em diversos países, entre os quais Alemanha, Reino Unido, Itália, Portugal e Espanha. Ali, os consumidores podem escolher de qual empresa (comercializadora) comprar energia, por períodos variados, com o exemplo extremo da Espanha, em que a escolha pode ser feita a cada 15 minutos.

Desta forma, os consumidores est√£o se transformando em clientes ativos de energia el√©trica, com a possibilidade de escolher a comercializadora para lhe fornecedor energia el√©trica, com base em uma compara√ß√£o de pre√ßos e condi√ß√Ķes. Configura-se, assim, uma rela√ß√£o comercial bem mais complexa e din√Ęmica do que aquela que prevalecia no paradigma tradicional.

Ainda no que diz respeito ao papel ativo dos consumidores de energia el√©trica, os medidores inteligentes s√£o fundamentais no sentido de possibilitar o gerenciamento da carga pelo lado da demanda e, posteriormente, a resposta da demanda. Apesar de a demanda de energia el√©trica ser tradicionalmente reconhecida por sua baixa elasticidade, com os medidores inteligentes o consumidor passa a controlar e adaptar os seus h√°bitos de consumo de maneira mais precisa e qualificada, dando condi√ß√Ķes e respaldo para a capacidade e din√Ęmica de resposta dos consumidores aos sinais de pre√ßo. Neste sentido, a vari√°vel demanda de energia el√©trica, sob controle dos consumidores, ganha uma flexibilidade inexistente no velho paradigma.

Este cenário já é realidade, por exemplo, no Reino Unido, onde o potencial de atuação ativa do consumidor justificou o programa de roll out de medidores inteligentes, cuja meta é a instalação destes equipamentos em todas as residências e pequenos negócios até o final de 2020.

O fluxo unilateral de energia, outro tradicional paradigma do Setor Elétrico, baseia-se no princípio de que a geração segue a carga, ou seja, a produção é uma variável dependente da demanda de energia elétrica. A energia é produzida em uma unidade geradora e, através de linhas de transmissão e redes de distribuição, segue um fluxo unidirecional até os centros de carga para atender os consumidores finais. Destaca-se que, com os Recursos Energéticos Distribuídos, este paradigma está sendo diretamente impactado. Como examinado anteriormente, na geração distribuída, os prossumidores com excedente de geração em relação ao seu consumo podem injetar energia na rede de distribuição, o que rompe com a tradicional unidirecionalidade do fluxo de energia.

Com uma difus√£o tecnol√≥gica ainda bem menos desenvolvida do que a gera√ß√£o distribu√≠da, o armazenamento de energia, em baterias e ve√≠culos el√©tricos, tamb√©m possui o cond√£o de alterar o fluxo da energia. Uma vez que as baterias podem desempenhar as fun√ß√Ķes de fonte de gera√ß√£o ou de demanda, o cen√°rio previs√≠vel de implementa√ß√£o de tarifas hor√°rias ir√° dar mais flexibilidade ao sistema el√©trico. Neste sentido, haver√° inje√ß√£o de energia na rede em momentos, por exemplo, de grande demanda, quando a tarifa de energia el√©trica est√° mais elevada, ou armazenamento de energia, quando esta for mais abundante e barata.

Outro pilar do Setor El√©trico √© a gera√ß√£o centralizada. Historicamente, as centrais geradoras s√£o grandes empreendimentos, com alta capacidade instalada, conectadas √†s linhas de transmiss√£o e que se localizam longe dos centros de carga, por isso a denomina√ß√£o gera√ß√£o centralizada. Todavia, com a difus√£o da gera√ß√£o distribu√≠da, esta caracter√≠stica tem se alterado e, hoje, √© crescente o n√ļmero de centrais geradoras de capacidade reduzida, cujos propriet√°rios s√£o os prossumidores, conectadas diretamente √† rede de distribui√ß√£o. Ou seja, a tend√™ncia √© que, cada vez mais, a gera√ß√£o n√£o esteja somente concentrada em grandes centrais geradoras, mas descentralizada e localizada perto dos centros de carga, o que, dentre os seus benef√≠cios, tem o potencial de reduzir as perdas t√©cnicas associadas ao transporte de energia e a necessidade de investimentos em linhas de transmiss√£o.

A quebra dos paradigmas tradicionais do Setor El√©trico, impulsionada pelas diversas mudan√ßas associadas, em grande medida, √† difus√£o e participa√ß√£o dos Recursos Energ√©ticos Distribu√≠dos, cria um processo de metamorfose, determinando obrigatoriamente a necessidade de se estabelecer novos arcabou√ßos t√©cnico, econ√īmico e principalmente regulat√≥rio, capazes de recepcionar, viabilizar e difundir as inova√ß√Ķes tecnol√≥gicas exponenciais.

Dentre os Recursos Energ√©ticos Distribu√≠dos, a gera√ß√£o solar fotovoltaica √© uma tecnologia avan√ßada e nota-se que, h√° dez anos, o seu impacto disruptivo era √≠nfimo. No Brasil, a t√≠tulo de exemplo, a gera√ß√£o solar fotovoltaica √© atualmente a fonte predominante nos empreendimentos de micro e minigera√ß√£o distribu√≠da. Em mar√ßo de 2016, os sistemas de micro e minigera√ß√£o instalados no pa√≠s correspondiam a uma capacidade de 24,7 MW, valor que quadruplicou em um ano, chegando a 107,6 MW, em mar√ßo de 2017. Atualmente, a capacidade instalada somente da gera√ß√£o solar fotovoltaica atinge quase 1.000 MW. Al√©m disso, os registros de projetos desta fonte nos Leil√Ķes de Energia A-4 e A-6, estruturados pelo MME, EPE e ANEEL, indicam claramente o vetor desta tecnologia exponencial e disruptiva.

Nota-se, portanto, um crescimento exponencial da difus√£o da gera√ß√£o solar fotovoltaica, justificada pelas pol√≠ticas de incentivo adotadas, com destaque para o sistema de compensa√ß√£o de energia, estabelecido no √Ęmbito da Resolu√ß√£o Normativa n¬ļ 482/2012, da ANEEL, as quais possibilitaram o desenvolvimento de sua cadeia produtiva e, consequentemente, a redu√ß√£o do seu custo. Deste modo, o desenvolvimento da gera√ß√£o solar fotovoltaica √© um vetor din√Ęmico e direto de disrup√ß√£o dos paradigmas do Setor El√©trico.

No mesmo sentido, pode-se afirmar, com baixa margem de erro e risco, que uma mesma trajet√≥ria verificada na gera√ß√£o solar fotovoltaica ir√° ocorrer no desenvolvimento das baterias e dos ve√≠culos el√©tricos, especialmente com a participa√ß√£o direta e competitiva dos grandes grupos da ind√ļstria automobil√≠stica, temas que ser√£o analisados em pr√≥ximos artigos.

Bibliografia:

ANEEL, Agência Nacional de Energia Elétrica. Geração Distribuída. Unidades Consumidoras com Geração Distribuída. http://www2.aneel.gov.br/scg/gd/GD_Fonte.asp.

ANEEL, Agência Nacional de Energia Elétrica. Nota Técnica no 0056/2017-SRD/ANEEL. Brasília, 2017.

Castro, N. J.; Dantas, G.; Brand√£o, R.; Rosental, R.; Moszkowice, M. A Ruptura do Paradigma Tecnol√≥gico e os Desafios Regulat√≥rios do Setor El√©trico. In: Revista de P&D. Bras√≠lia. ANEEL. 7¬ļ edi√ß√£o, 2017.

EPE, Empresa de Pesquisa Energética. Recursos Energéticos Distribuídos: Impactos no Planejamento Energético. Brasília, 2018.

Goulden, M.; Spence, A.; Wardman, J.; Leygue, C. Differentiating ‚Äėthe User‚Äô in DSR: Developing Demand Side Response in Advanced Economies. University of Nottingham, Nottingham, Reino Unido, 2018.

Moore, G. Progress in Digital Integrated Electronics. IEEE Text Speech, Estados Unidos da América, 1975.

Ofgem, Office of Gas and Electricity Markets. Transition to Smart Meters. Disponível em: https://www.ofgem.gov.uk/gas/retail-market/metering/transition-smart-meters.

%d blogueiros gostam disto: