ūüé• Transi√ß√£o el√©trica: os casos de Reino Unido e Alemanha

Por Nivalde de Castro, André Alves, Diogo Salles e Luiza Masseno.

Artigo publicado pela Agência CanalEnergia, em 21 de outubro de 2019 (Clique aqui acessar o PDF).

A pesquisadora Bianca Castro faz uma breve apresentação do artigo.

H√° em curso, um processo din√Ęmico e irrevers√≠vel de transi√ß√£o energ√©tica em escala mundial. O objetivo maior e priorit√°rio √© a descarboniza√ß√£o das atividades produtivas, dos servi√ßos e do comportamento social e cultural da sociedade, atrav√©s da redu√ß√£o das emiss√Ķes de gases poluentes.

Tendo este norte, observa-se, de forma crescente, uma converg√™ncia de esfor√ßos por parte dos governos de diversos pa√≠ses, de organismos internacionais e de grandes grupos econ√īmicos, no sentido de modificar a composi√ß√£o das matrizes energ√©ticas e el√©tricas nacionais, buscando a redu√ß√£o da participa√ß√£o de fontes mais poluidoras.

Neste contexto, e com foco anal√≠tico no setor el√©trico, a descarboniza√ß√£o √© apoiada e retroalimenta mudan√ßas de paradigma da digitaliza√ß√£o e da descentraliza√ß√£o: os tr√™s “D¬īs”. Desta forma, o setor el√©trico √©, hoje, um campo muito f√©rtil e din√Ęmico para mudan√ßas tecnol√≥gicas disruptivas e exponenciais.

Destaca-se que o processo de descarbonização, ao redor do mundo, é muito diferenciado em termos qualitativos e quantitativos, pois depende e é influenciado pelo status da matriz elétrica e pela disponibilidade nacional de recursos energéticos.

A nível mundial, constata-se, assim, um duplo movimento de transição da matriz elétrica:

i. Aumento da participação das fontes renováveis; e

ii. Substituição do carvão por alternativas menos poluentes, notadamente pelo gás natural.

Com relação a este duplo movimento da transição elétrica, a União Europeia (UE) enfrenta o maior desafio mundial, na medida em que possui, relativamente, a menor disponibilidade de recursos energéticos não renováveis, como carvão e gás natural. Neste sentido, a prioridade estratégica da política energética de transição recai diretamente sobre as energias eólica e solar, recursos genuinamente nacionais, que não dependem de importação.

Este desafio da UE pode ser percebido através da mudança do perfil da geração de energia elétrica, ocorrida entre os anos de 2000 e 2018. De acordo com o Gráfico 1, a participação de fontes renováveis na matriz, que correspondia a 14%, em 2000, passou para 32%, em 2018. Trata-se, assim, de um aumento expressivo, de cerca de 130%, resultado direto de Diretivas da UE que orientaram as políticas energéticas nacionais.

Fonte: elaboração própria, a partir de dados da BP (2019).

Dentro os pa√≠ses que formam a Uni√£o Europeia, merecem destaque anal√≠tico o Reino Unido e a Alemanha, pela import√Ęncia econ√īmica, desafios tecnol√≥gicos e pol√≠ticas energ√©ticas inovadoras adotadas.

No primeiro caso, o destaque se justifica pelo fato de o Reino Unido ser uma ilha com reduzido potencial de recursos energ√©ticos. J√° o caso alem√£o se notabilizou por decis√£o pol√≠tica de base eleitoral, n√£o considerando quest√Ķes energ√©ticas, derivada dos impactos sociais do acidente de Fukushima, de descontinuar a gera√ß√£o de eletricidade a partir de usinas nucleares.

No Reino Unido, através dos dados do Gráfico 2, é possível observar um movimento contínuo de substituição do carvão pelo gás natural e pela energia nuclear na composição percentual da geração termelétrica, no período de 2000 a 2018. O destaque é para o aumento em cerca de 50% do gás natural, que, em 2000, detinha uma participação de pouco mais de 40%, passando para mais de 60%, em 2018. Já a geração de base nuclear quase duplicou a sua participação, entre 2008 e 2018, valores que deverão aumentar ainda mais, em função de um grande projeto de usinas nucleares recentemente leiloados.

Fonte: elaboração própria, a partir de dados da BP (2019).

Quanto à participação de energias renováveis na geração de eletricidade do Reino Unido, o crescimento foi muito expressivo, partindo de 3%, em 2000, e aumentando para 33%, em 2018, de acordo com o Gráfico 3. Em síntese um crescimento de dez vezes, sobressaindo-se em nível internacional como uma das mais exitosas políticas de transição elétrica.

Fonte: elaboração própria, a partir de dados da BP (2019).

Dentre as fontes renov√°veis, destaca-se a energia e√≥lica, que, em 2018, foi respons√°vel por cerca de 17% de toda a gera√ß√£o de eletricidade no pa√≠s. Esta fonte tender√° a crescer, dado os incentivos √†s inova√ß√Ķes tecnol√≥gicas e os novos arranjos de mercado para as plataformas de energia e√≥lica offshore, da qual o Reino Unido det√©m posi√ß√£o de lideran√ßa por deter pouco mais de 36 % da capacidade instalada mundial. A performance das fontes renov√°veis expressa, claramente, as prioridades da pol√≠tica energ√©tica, n√£o s√≥ em fun√ß√£o das caracter√≠sticas geogr√°ficas do Reino Unido, mas tamb√©m pela prioridade dada √† seguran√ßa nacional de suprimento.

A Alemanha, por sua vez, tamb√©m registra um grande aumento da participa√ß√£o das renov√°veis na gera√ß√£o de eletricidade, no per√≠odo entre 2000 e 2018. Isso pode ser explicado pelas iniciativas do governo alem√£o no sentido de diminuir as emiss√Ķes de gases poluentes e de busca de seguran√ßa energ√©tica. Um exemplo √© o chamado Energiewende, programa que, dentre seus objetivos principais e estrat√©gicos, est√° a sustentabilidade do sistema energ√©tico do pa√≠s, at√© o ano de 2050.

Além de dar grande incentivo às fontes renováveis de energia, a Alemanha também decidiu abandonar, de forma gradativa, a energia nuclear. Após o acidente nuclear de Fukushima, em 2011, o governo alemão determinou a desativação gradativa de todas as suas usinas nucleares, até 2022.

No Gr√°fico 4, √© poss√≠vel constatar a redu√ß√£o percentual da gera√ß√£o de eletricidade de plantas nucleares e o aumento da participa√ß√£o do g√°s natural e do carv√£o, no per√≠odo entre 2000 e 2018. Esta din√Ęmica de transi√ß√£o da pol√≠tica energ√©tica no campo das n√£o renov√°veis, notadamente do aumento da participa√ß√£o percentual do carv√£o, deriva do fato de a Alemanha possuir este recurso e de poder importa-lo de pa√≠ses vizinhos que fazem parte da UE.

Gr√°fico 4

Fonte: elaboração própria, a partir de dados da BP (2019).

No entanto, a análise comparativa da transição elétrica entre as fontes renováveis e não renováveis, no período em questão, indica que o esforço da política energética foi compensado, tendo em vista que a participação das renováveis passou de 7% para 35%, em 18 anos, representando um aumento de 400%, como atestam os dados do Gráfico 5.

Gr√°fico 5

Fonte: elaboração própria a partir de dados da BP (2019).

Em um contexto de transição energética marcada pela busca por fontes alternativas para geração de energia e, ainda, pela substituição do carvão, o caso da Europa chama atenção em função da baixa disponibilidade de recursos energéticos, observada no continente. Os casos de Reino Unido e Alemanha se notabilizam pela forma como os países vêm percorrendo a trajetória da transição, de maneira peculiar e distintas entre si.

Apesar de ambos os países estimularem a difusão de fontes renováveis para geração de energia, eles possuem diferenças marcantes com relação à geração termelétrica. Enquanto o Reino Unido opta pelo aumento da geração a partir das usinas nucleares e a gás natural, a Alemanha opta pela gradativa desativação das usinas nucleares, sendo compensada pelo aumento da geração a gás natural e a partir de fontes renováveis, com destaque para a eólica.

Estas diferen√ßas indicam que, mesmo sob a √©gide de Diretivas tra√ßadas e determinadas pela Comiss√£o Europeia de Energia, com foco na descarboniza√ß√£o, que se expressam e se materializam na composi√ß√£o das matrizes el√©tricas, conforme apresentado neste sucinto artigo, h√° diferen√ßas nas din√Ęmicas nacionais, como se pode constatar em rela√ß√£o √†s fontes n√£o renov√°veis, indicando, assim, certo e compreensivo pragmatismo das pol√≠ticas energ√©ticas, determinado acima de tudo pela preocupa√ß√£o com a seguran√ßa nacional energ√©tica.

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