ūüé• Ve√≠culos El√©tricos no nexo energia, √°gua e alimentos

Por Nivalde de Castro e Camila Ludovique.

O artigo foi publicado pelo serviço de informação Broadcast da Agência Estado de São Paulo em 04 de dezembro de 2019 (Clique aqui acessar o PDF).

A pesquisadora Camila Ludovique faz um breve resumo do artigo.

Alimento, √°gua e energia s√£o bens ess√™ncias, mas dos 7 bilh√Ķes de habitantes da Terra, estimativas das Na√ß√Ķes Unidas indicam que 1,1 bilh√£o vive sem √°gua pot√°vel, 1,3 bilh√£o sem eletricidade e 1,02 bilh√£o passa fome. Al√©m disso, com o crescimento da popula√ß√£o mundial e a intensifica√ß√£o da urbaniza√ß√£o e das cadeias globais de com√©rcio, ser√° necess√°rio um aumento, em 2050, de 60% da produ√ß√£o de alimentos, 50% da gera√ß√£o de energia e 40% da disponibilidade de √°gua pot√°vel. Neste contexto global, estima-se que Brasil ter√° um papel determinante no suprimento da demanda mundial por alimentos, o que intensificar√° as press√Ķes e os conflitos por estes bens em territ√≥rio nacional. O atual aumento do pre√ßo da carne no mercado nacional √© um exemplo.

Devido a correla√ß√Ķes entre os tr√™s setores, especialistas do nexo alimento, √°gua e energia defendem que os v√≠nculos entre estes dom√≠nios cr√≠ticos requerem uma abordagem anal√≠tica integrada, com vistas a garantir a tripla seguran√ßa de aprovisionamento e melhores tomadas de decis√Ķes estrat√©gicas e de pol√≠ticas p√ļblicas. Por√©m, historicamente, as solu√ß√Ķes desenhadas para atender a seguran√ßa destes tr√™s recursos, fundamentais ao desenvolvimento econ√īmico e social, foram e ainda s√£o tratadas separadamente.

Visando alterar este mindset, as Na√ß√Ķes Unidas v√™m fomentando que tais setores precisam ser analisados de forma interdependente. Para tanto, √© necess√°rio estruturar um ambiente multissetorial, a fim de promover a identifica√ß√£o de pol√≠ticas que maximizem a sinergia entre os tr√™s setores, viabilizando e suportando novos neg√≥cios sustent√°veis.

O que isso significa? Significa que, para lidar com os desafios de abastecimento alimentar, de água e de energia, será necessário, no mínimo, aprender a lidar com a escassez e com a complexidade sistêmica, sendo importante a criação de novos modelos de governança.

Recentemente, no Brasil, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), principal fonte de financiamento para o desenvolvimento sustent√°vel da Am√©rica Latina, coordenou uma pesquisa em rela√ß√£o √† tem√°tica nexo no Brasil, realizada pela COPPE/UFRJ. O projeto, denominado ‚ÄúElabora√ß√£o de Nota T√©cnica sobre o Nexo Seguran√ßa H√≠drica, Energ√©tica e Alimentar no Brasil em Di√°logos com a Sociedade Civil‚ÄĚ, tem como objetivo central integrar as tr√™s seguran√ßas sob a perspectiva de diferentes dimens√Ķes socioecon√īmicas e de governan√ßa ambiental, atrav√©s de um processo de di√°logo com a sociedade civil e do uso de uma ferramenta de modelagem integrada.

Algumas considera√ß√Ķes elaboradas por esta pesquisa indicam que, em resumo, para implementar a racionalidade do nexo, no Brasil, deve-se investir na capacita√ß√£o profissional e na viabiliza√ß√£o da reestrutura√ß√£o dos fluxos de informa√ß√£o e de estruturas institucionais. Ademais, a partir da nota t√©cnica preliminar, percebe-se a import√Ęncia de dois vetores da seguran√ßa energ√©tica no Brasil: i) a descarboniza√ß√£o, atrav√©s da inclus√£o de fontes renov√°veis e da eletrifica√ß√£o da frota de autom√≥veis; e ii) a flexibiliza√ß√£o do setor el√©trico para se adequar aos novos padr√Ķes tecnol√≥gicos da oferta e da demanda.

A pesquisa avalia que a eletrificação da frota nacional de veículos não apresenta pontos de conflito com o setor hídrico e alimentar e seria uma alternativa das mais consistentes e viáveis para a descarbonização do setor energético. Além disso, os veículos elétricos (VEs) poderiam prestar serviços ancilares ao sistema elétrico, contribuindo à flexibilização e à modernização das redes de distribuição e ao abastecimento de energia.

Sobre a eletrifica√ß√£o do setor de transporte, os VEs v√£o gradativamente vencer as barreiras de custos atuais, impulsionados por pol√≠tica p√ļblicas de diferentes tipos, com a tend√™ncia de se tornarem produtos massificados. Neste processo, dado o car√°ter globalizado da ind√ļstria automobil√≠stica, a frota nacional seguiria esta nova tend√™ncia tecnol√≥gica mundial.

Considerando este cen√°rio de difus√£o dos VEs, os motores a combust√£o interna passariam a servir a nichos e demandas espec√≠ficas, afetando, assim, toda a cadeia dos biocombust√≠veis. Por√©m, um fator de destaque no setor energ√©tico √© o papel da bioenergia em territ√≥rio nacional e a sua import√Ęncia para o desenvolvimento econ√īmico como um todo. Assumindo uma poss√≠vel eletrifica√ß√£o da frota e redu√ß√£o da demanda dos biocombust√≠veis, duas estrat√©gias seriam poss√≠veis para o setor sucroalcooleiro: i) a utiliza√ß√£o das mol√©culas org√Ęnicas em produtos de maior valor agregado, vislumbrando novos produtos e mercados; e ii) o investimento em combust√≠veis de segunda gera√ß√£o, para um aumento da produtividade.

Ademais, a eletrifica√ß√£o da frota de passageiros, no Brasil, pode ser uma pol√≠tica coerente com as contribui√ß√Ķes nacionais firmadas no Acordo de Paris, al√©m de permitir uma efici√™ncia sist√™mica intersetorial e o desenvolvimento de dois pilares fundamentais do setor energ√©tico: a descarboniza√ß√£o e a flexibiliza√ß√£o.

Este processo din√Ęmico e irrevers√≠vel exige e refor√ßa a necessidade de maiores estudos e an√°lises sobre a tem√°tica, dada a baixa difus√£o desta rota tecnol√≥gica, e de pesquisas sobre poss√≠veis impactos no nexo √°gua, energia e alimentos, no pa√≠s.

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