A Pandemia da Covid-19 e difusão de Veículos Elétricos

Por Nivalde de Castro, Lorrane Câmara e Matheus Guerra.

Este artigo foi publicado pelo serviço de informação Broadcast da Agência Estado de São Paulo em 11 de junho de 2020 (Clique aqui acessar o PDF).

Atualmente, o setor de transportes é responsável por cerca 28% do consumo mundial de energia primária e o seu uso intensivo de combustíveis fósseis o posiciona entre os principais vetores de emissão de gases nocivos ao meio ambiente. No atual e complexo processo de transição energética, marcado pela definição de metas e políticas públicas direcionadas à descarbonização, a eletrificação do setor de transportes é um driver fundamental e estratégico, inclusive para a retomada do crescimento econômico dos países desenvolvidos, notadamente da União Europeia. Esta estratégia de investimento na descarbonização apresenta uma elevada densidade tecnológica e é caracterizada por denso e capital efeito multiplicador, com impactos positivos sobre as cadeias produtivas.

Um fator determinante de estímulo à produção de veículos elétricos (VEs) foram os ganhos de escala da cadeia produtiva de baterias, permitindo que, entre 2010 e 2019, o custo deste componente reduzisse em 85%. Esta redução teve um papel importante, uma vez que as baterias representam, aproximadamente, 57% do custo total de produção dos VEs. Como resultante, a comercialização global avançou de 450 mil para 2,1 milhões de unidades, entre 2015 e 2019.

Merece ser destacado que o ano de 2017 foi de inflexão com o início do declínio de vendas de veículos à combustão interna. O processo de crescimento dos VEs, no entanto, enfrentará o grande desafio da crise econômica mundial provocada pela Covid-19, cujos impactos de curto e longo prazo sobre este segmento serão analisados, de forma objetiva, a seguir.

O primeiro impacto, de curto prazo, da crise no setor produtivo de VEs é a revisão das projeções de crescimento. Até março de 2020, projetava-se a venda, neste ano, de 3,42 milhões de unidades. Uma primeira estimativa foi realizada pela Bloomberg New Energy Finance (BNEF), indicando uma queda de 18% na venda de VEs, em 2020, em relação a 2019. Trata-se, assim, de uma reversão drástica da tendência de aumento verificada nos últimos dez anos. Para veículos à combustão interna, a queda prevista nas vendas é de 23% e uma comparação elementar indica que os VEs se mostram mais resilientes do que os veículos à combustão interna frente à crise da pandemia. A BNEF aponta, ainda, que, embora a pandemia da Covid-19 irá provocar atrasos nos lançamentos de novos modelos de VEs, são previstos, até 2022, 500 modelos de VEs disponíveis globalmente, sinal inequívoco da força da transição em direção à mobilidade elétrica.

No entanto, pode-se prever outros impactos, de curto prazo, da pandemia sobre a produção de VEs, destacando-se: o efeito de postergação na compra de novos veículos, devido ao cenário de isolamento e incertezas; o adiamento das políticas públicas de restrição aos veículos à combustão interna; o efeito dos menores preços dos combustíveis fósseis, reduzindo a competitividade dos VEs; e a redução do ritmo dos investimentos em VEs e na expansão da infraestrutura de recarga.

Em uma perspectiva mais ampla, de médio e longo prazo, o cenário é positivo em função da inclusão dos VEs nas políticas de estímulo econômico em setores verdes, para garantir a retomada pós-crise, como é o caso específico da União Europeia, capitaneada pela Alemanha.

Neste sentido, cria-se uma demanda potencial elevada para a indústria de VEs, considerando que é um segmento que fornece uma oportunidade de crescimento econômico aliada à sustentabilidade ambiental. Desta forma, o processo de gradual substituição dos veículos à combustão interna por VEs irá se manter no médio e longo prazo. De acordo com as projeções da BNEF, os VEs atingirão maior parcela (58%) das vendas anuais de veículos em 2040, devendo alcançar a marca de 54 milhões de unidades.

No âmbito de políticas públicas, o plano de recuperação econômica anunciado pela União Europeia, o European Green Deal, prevê investimentos na ordem de € 1 trilhão e tem como núcleo duro a aceleração do processo de transição energética, com a construção de um futuro de baixo carbono. O Plano inclui o estímulo a empregos ligados à sustentabilidade e a energias renováveis, metas e incentivos relacionados ao desenvolvimento de infraestrutura e a descarbonização do setor de transportes, incluindo a construção de um milhão de pontos de carregamento para VEs.

Na China, um dos epicentros da pandemia, é projetada a redução da venda de VEs na ordem de 15,5%, em 2020. A indústria automotiva tem uma posição importante na economia chinesa, sendo responsável pela geração de milhares de empregos. Assim, frente à desaceleração, o governo está adotando uma série de medidas de incentivo à indústria. Um exemplo é que o programa de subsídios e isenções fiscais para compra de VEs, cujo encerramento era previsto para 2020, foi estendido até 2022. Paralelamente, a State Grid mantém a meta de instalar de 78 mil estações de carregamento de VEs, até dezembro de 2020. Estes exemplos indicam o comprometimento da China com a eletrificação do setor de transportes.

Por fim, a título de conclusão, a pandemia está determinando impactos significativos sobre a venda de VEs no curto prazo, associados à retração das atividades econômicas, à desaceleração expressiva da indústria automobilística e à redução da renda da população. Estes impactos já foram captados pela revisão das projeções de vendas anuais para 2020. No entanto, no médio e no longo prazo, em decorrência da importância estratégica de descarbonização e da centralidade das medidas relacionadas à mobilidade elétrica nos pacotes de recuperação econômica já anunciados, como no caso da China e da União Europeia, a trajetória de aceleração da eletrificação do setor de transportes se mantém e se firmam nos cenários econômico e tecnológico. Esta perspectiva irá afetar positivamente o Brasil em função da dimensão da indústria automobilística nacional e dos 36 projetos de pesquisa em andamento vinculados ao Programa de P&D da ANEEL.

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