Mobilidade urbana e o compartilhamento de veículos elétricos

Por André Alves e Lara Moscon.

Artigo publicado pelo Informativo Eletrônico de Mobilidade Elétrica do GESEL em 06 de julho de 2020 (Clique aqui acessar o PDF).

Um dos grandes desafios do mundo contemporâneo está associado à questão da mobilidade urbana, marcada pela saturação das vias, em função do alto volume de veículos em circulação, e pela alta emissão de gases poluentes.

Assim, está bastante clara a necessidade de se repensar o sistema atual, incluindo a formulação de novos modelos de negócio que viabilizem um novo paradigma. A esta necessidade, soma-se a concepção, que vem ganhando força no mundo dos negócios, de hábitos de consumo mais inteligentes, baseados na utilização de serviços e não na posse dos produtos. Essa concepção ganha ainda mais força com os avanços nos sistemas de troca de informação entre empresas e consumidores, proporcionados pela oportunidade de acesso a uma ampla gama de bens e serviços que a internet viabiliza.

Neste cenário, ganham espaço novos modelos de negócio, como, por exemplo, o compartilhamento de veículos, também conhecido como carsharing, no qual se permite o uso de veículos de forma temporária. Assim, o carsharing possibilita que o usuário se beneficie do veículo sem a necessidade de adquiri-lo.

Contudo, os benefícios em se trocar a aquisição do veículo pelo serviço de compartilhamento dependem, sobretudo, dos modelos de negócio envolvendo frotas compartilhadas. Uma das questões mais importantes a esse respeito está relacionada à forma de cobrança. Nos modelos atualmente implementados mundo afora, é cobrada uma taxa anual, somada a uma tarifa dinâmica, determinada em função da quilometragem percorrida ou do tempo de uso.

Nota-se, também, que existem modelos distintos com relação à propriedade dos veículos compartilhados. Estes podem ser da empresa que gerencia o serviço ou de outras pessoas que estejam com seus veículos ociosos e o disponibilizam temporariamente, mediante compensação financeira. A alta adesão ao serviço de compartilhamento de veículos pressupõe que as taxas de cobrança devem ser competitivas com os custos de combustível e de manutenção de um veículo próprio, incluindo seguro e impostos.

Neste sentido, os veículos elétricos configuram-se como uma opção para o carsharing por apresentarem custos de combustível e de manutenção mais baixos se comparados aos veículos tradicionais com motor a combustão. Destaca-se que o carsharing tem potencial para contornar uma das principais barreiras verificadas hoje com relação aos veículos elétricos, qual seja, a autonomia das baterias. Isso ocorre porque as viagens feitas através do serviço são, de modo geral, mais curtas e o veículo pode ser carregado enquanto não está em uso.

Outra vantagem dos veículos elétricos está relacionada à questão ambiental. De acordo com dados International Energy Agency, o setor de transporte é responsável por, aproximadamente, 20% do total das emissões anuais de gases poluentes no planeta. O compartilhamento de veículos elétricos, porém, tem o potencial de reduzir esse percentual e, assim, contribuir com as metas de redução de gases poluentes estabelecidas por diversos países.

Entretanto, há aspectos relacionados ao compartilhamento de veículos elétricos que ainda precisam ser amadurecidos, sobretudo aqueles ligados à sua complexidade operacional, que é significativamente maior do que a de um veículo convencional. É preciso considerar, por exemplo, a autonomia limitada das baterias, os horários de picos do sistema elétrico, o tempo necessário de recarga e o acesso à infraestrutura de carregamento rápido, ainda limitada, especialmente no caso brasileiro.

Se a nível mundial a questão da mobilidade urbana é um desafio, no Brasil este problema ganha contornos ainda maiores. Assim, o compartilhamento de veículos pode ser uma alternativa interessante para reduzir a frota de carros nas ruas e ajudar a aliviar os problemas de tráfego enfrentados nas grandes cidades brasileiras. Entretanto, o serviço está longe de ser uma realidade no país, considerando que há poucas empresas atuantes, altamente concentradas na cidade de São Paulo. Destaca-se que a aceleração da difusão do serviço, no Brasil, está associada a políticas públicas e incentivos por parte dos governos, nas esferas federal e municipal.

Em síntese, o sistema de carsharing é uma alternativa interessante para enfrentar os desafios associados à mobilidade urbana, além de ser condizente com as tendências de mudança de padrões de consumo da população. O uso de veículos elétricos associados ao serviço traz, ainda, vantagens adicionais, como custos mais baixos e redução do nível de emissões. Assim, o compartilhamento de veículos é uma tendência que vem ganhando força nas grandes cidades, em função dos benefícios trazidos, que tendem a se tornar cada vez evidentes com o amadurecimento do serviço e o desenvolvimento de modelos de negócios mais eficientes.

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