ūüé• Valor Estrat√©gico dos Reservat√≥rios das Usinas Hidroel√©tricas Brasileiras

Por Nivalde de Castro, Julian Hunt e Bianca Castro.

Este artigo foi publicado pelo serviço de informação Broadcast Energia da Agência Estado de São Paulo em 9 de julho de 2020 (Clique aqui acessar o PDF).

O pesquisador Julian Hunt faz uma breve apresentação do artigo.

A matriz elétrica brasileira é composta por mais de 80% de fontes renováveis, sendo uma das melhores do mundo na comparação com outros países no requisito de sustentabilidade ambiental.

Uma das caracter√≠sticas mais marcantes desta matriz √© a majorit√°ria participa√ß√£o das usinas hidroel√©tricas (UHEs), superior a 60%. No entanto, esta participa√ß√£o est√° se reduzindo em termos percentuais, basicamente por dois fatores. O primeiro √© de ordem legal, com a imposi√ß√£o de uma legisla√ß√£o ambiental muito restritiva que torna o risco dos investimentos muito elevados. O segundo √© de ordem geogr√°fica, tendo em vista que a maioria do potencial h√≠drico est√° localizada na regi√£o da Amaz√īnia, onde prevalecem √°reas planas e muitas √°reas de prote√ß√£o ambiental e ind√≠genas, recaindo-se no primeiro fator restritivo.

Mesmo com a impossibilidade de construir novas UHEs, há uma variável importante e estratégica para o setor elétrico, meio ambiente e agronegócios, que são os reservatórios existentes e vinculados diretamente às UHEs construídas a partir dos anos de 1940, ciclo iniciado pela CHESF.

Para se ter uma dimensão geográfica dos reservatórios existentes, as áreas inundadas cobrem cerca de 37 mil km2, equivalente à área da Suíça. O estado de São Paulo tem 21 grandes reservatórios, com uma área inundada total de 8.766 km2,o que representa 3,53% de seu território.

Do ponto de vista espec√≠fico do sistema el√©trico, a energia armazenada pelos reservat√≥rios tem um valor econ√īmico muito grande e crescente, grosso modo, por dois motivos: possibilita o suprimento de energia ao longo do ano, notadamente no per√≠odo seco (de abril a outubro), e permite a realiza√ß√£o de ajustes em tempo real, frente √† intermit√™ncia das novas e ultracompetitivas fontes renov√°veis (e√≥lica e solar) que est√£o ganhando maior participa√ß√£o na matriz el√©trica.

Destaca-se que mais de 70% da capacidade de armazenamento de energia hidrel√©trica do Brasil est√° localizada nas regi√Ķes Sudeste e Centro-Oeste. Durante uma estiagem nestas regi√Ķes, os reservat√≥rios esvaziam e o pa√≠s, como um todo, precisa aumentar a gera√ß√£o termoel√©trica, elevando os pre√ßos da eletricidade (bandeiras tarif√°rias no mercado cativo), incentivar a redu√ß√£o da demanda de eletricidade e at√© implementar pol√≠ticas de racionamento de consumo, como ocorreu em 2001, com a crise do apag√£o.

Feitas estas considera√ß√Ķes de enquadramento tem√°tico, o objetivo central deste artigo √© analisar duas outras externalidades t√£o ou mais importantes dos reservat√≥rios, que transcendem o sistema e setor el√©trico: os impactos no clima regional e a umidade do solo das bacias hidrogr√°ficas onde est√£o localizadas as UHEs e seus respectivos reservat√≥rios.

Durante o período chuvoso na Região Sudeste do Brasil (de novembro a março), a umidade média é de cerca de 70%, com baixa velocidade média dos ventos. Neste contexto climático, a evaporação é baixa, mas a evaporação adicional contribui para aumentar a precipitação regional, o que provoca o aumento do fluxo dos rios, denominado energia natural afluente (ENA), possibilitando a geração de energia elétrica. Além disso, tradicionalmente, com o aumento da precipitação, há a elevação do nível dos reservatórios, pois o volume da ENA é maior do que o consumo de energia elétrica, sendo assim possível aumentar o estoque de energia disponível (conceito de Energia Armazenada) para ser utilizado no período seco (de abril a outubro).

Na posi√ß√£o e situa√ß√£o de maior volume de energia armazenada, a √°rea inundada e a umidade do solo ao redor do reservat√≥rio tamb√©m aumentam. Como consequ√™ncia, h√° um aumento das taxas de evapora√ß√£o, o que provoca o aumento da umidade do ar e reduz a temperatura do clima regional. Assim, a atmosfera fica mais √ļmida e fria e, quando um sistema de clima quente e √ļmido atinge as √°reas onde est√£o localizados as bacias hidrogr√°ficas e os reservat√≥rios, a chance de precipita√ß√£o aumenta.

Por outro lado, quando os reservat√≥rios das UHEs est√£o em n√≠veis cr√≠ticos, a √°rea inundada e a umidade do solo ao redor s√£o mais baixas. Este status determina uma redu√ß√£o das taxas de evapora√ß√£o, o que diminui a umidade do ar e provoca o aumento da temperatura do clima regional e, consequentemente, do consumo de energia el√©trica, por exemplo pelo uso intenso dos sistemas de refrigera√ß√£o de ar. Com uma atmosfera quente e menos √ļmida, quando uma frente quente e √ļmida atinge esses reservat√≥rios, as chances de precipita√ß√£o diminuem.

Desta forma, com base neste simples e did√°tico exemplo apresentado, os reservat√≥rios atuam como o n√ļcleo central de um c√≠rculo virtuoso: mais chuvas, mais energia armazenada, mais umidade e temperaturas mais amenas, trazendo benef√≠cios para outros setores.

Neste contexto anal√≠tico simplificado, mas consistente, duas quest√Ķes relevantes, entre tantas outras, colocam-se para a pol√≠tica e o planejamento energ√©tico brasileiro em rela√ß√£o aos reservat√≥rios: como viabilizar a opera√ß√£o do sistema el√©trico para preservar os reservat√≥rios, a fim de que o c√≠rculo virtuoso se mantenha ativo, e como ampliar a capacidade dos reservat√≥rios e contribuir para c√≠rculos virtuosos mais intensos.

No que diz respeito à primeira questão, a alternativa é a ampliação das usinas térmicas a gás natural produzindo mais energia elétrica e preservando o nível dos reservatórios. Esta estratégia contribuirá, de forma decisiva, para a estruturação e consolidação de um novo mercado de gás, tendo como fonte de fornecimento o potencial de exploração vinculado ao pré-sal.

A segunda quest√£o √© das usinas hidroel√©tricas revers√≠veis. N√£o se trata de construir novas usinas, mas de analisar as caracter√≠sticas t√©cnicas das mais de mil UHEs que o Brasil tem em funcionamento e propor novas modelagens t√©cnicas e novos modelos de neg√≥cios apoiados em inova√ß√Ķes regulat√≥rias, mediante leil√Ķes espec√≠ficos, com impactos ambientais reduzidos.

Como nota final, e face ao que aqui foi exposto, fica claro que os reservatórios das UHEs do Brasil possuem um papel estratégico, que transcende o setor elétrico, sendo um elemento positivo e diferenciador do país em relação ao resto do mundo. E que certamente está no horizonte analítico e estratégico da política energética brasileira.

%d blogueiros gostam disto: