ūüé•Modelos de neg√≥cio para infraestrutura de recarga de ve√≠culos el√©tricos na Europa

Por Nivalde de Castro, Lillian Monteath, Matheus Guerra e Lara Moscon.

Este artigo publicado pelo servi√ßo de informa√ß√£o Ag√™ncia CanalEnergia em 13 de outubro de 2020 (Clique aqui acessar o PDF).

O pesquisador Matheus Guerra Vieira apresenta artigo sobre modelos de negócio para infraestrutura de recarga de VE
1         Introdução

O crescimento do mercado de ve√≠culos el√©tricos (VE) na √ļltima d√©cada aponta que esta tecnologia lentamente vai conquistando a prefer√™ncia do consumidor em compara√ß√£o aos ve√≠culos √† combust√£o interna. No entanto, o alto custo de aquisi√ß√£o, a menor autonomia de deslocamento e op√ß√Ķes limitadas de infraestrutura de recarga ainda s√£o motivos e barreiras para consumidores mais reticentes n√£o realizarem esta transi√ß√£o.

A r√°pida evolu√ß√£o tecnol√≥gica e o aumento na produ√ß√£o de VE permitir√£o uma oferta a custo menor, mas com melhores especifica√ß√Ķes, como a capacidade de realizar trajetos mais longos. Governos e montadoras tamb√©m lan√ßam pacotes financeiros, como subs√≠dios e isen√ß√Ķes fiscais, visando reduzir o custo de aquisi√ß√£o de VE para torn√°-los competitivos frente aos ve√≠culos √† combust√£o interna.

Para estimular a difus√£o de VE, agentes p√ļblicos e privados de diferentes tipos intensificam esfor√ßos para expandir a infraestrutura de carregamento, realizando investimentos e promovendo incentivos a esta tecnologia, notadamente com o objetivo de reduzir o tempo de recarga. Este segmento do mercado pode ser dividido em tr√™s tipos distintos, recarga residencial, empresarial e p√ļblica, os quais apresentam um car√°ter de complementaridade em rela√ß√£o √†s prefer√™ncias do consumidor, contribuindo para reduzir a resist√™ncia inicial.

A recarga residencial √© uma op√ß√£o voltada ao consumidor que realiza trajetos di√°rios de curta dist√Ęncia, permitindo um carregamento com maior dura√ß√£o temporal, o qual pode alcan√ßar at√© oito horas. A recarga em resid√™ncia √© marcada por um menor custo, tanto de instala√ß√£o dos equipamentos, quanto da energia consumida para abastecer o ve√≠culo, caso haja um sistema de tarifa√ß√£o hor√°ria diferenciada. Destaca-se, por√©m, que n√£o se trata de uma solu√ß√£o muito capilar, dada a exist√™ncia de apartamentos sem garagem.

A recarga de frotas empresariais de VE, tend√™ncia que deve crescer de forma r√°pida, considerando a redu√ß√£o dos custos operacionais e de manuten√ß√£o, √©  fact√≠vel, mas est√° condicionada a ve√≠culos leves e com rotas dentro dos respectivos limites t√©cnicos de autonomia.

As esta√ß√Ķes de recarga p√ļblicas, por sua vez, surgem como uma op√ß√£o de maior acessibilidade e conveni√™ncia ao p√ļblico. Posicionadas estrategicamente em locais compat√≠veis com a autonomia dos VE e dispondo de equipamentos com maior pot√™ncia, de no m√≠nimo 50 kW, o tempo de recarga dos ve√≠culos em esta√ß√Ķes p√ļblicas pode ser menor que uma hora.

A maior facilidade e comodidade dos postos de carregamento √© acompanhada por um aumento significativo nos custos para a instala√ß√£o de uma esta√ß√£o de recarga r√°pida. Gastos como a aquisi√ß√£o ou loca√ß√£o do local da esta√ß√£o de recarga, a op√ß√£o por equipamentos com maior pot√™ncia e a adapta√ß√£o da rede para um maior fluxo de eletricidade representam os custos fixos do empreendimento, que podem variar significativamente de acordo com a localidade. A instala√ß√£o de uma esta√ß√£o de 50 kW pode custar at√© ‚ā¨ 100.000 apenas em equipamentos, sem adicionar os custos com a adapta√ß√£o do local e a m√£o-de-obra necess√°ria.

 Custos vari√°veis operacionais, como a aquisi√ß√£o de energia, contratos com provedores de aplicativos para viabiliza√ß√£o do servi√ßo e m√£o-de-obra para o funcionamento do posto, tamb√©m exercem forte impacto sobre o custo total do investimento.

A diferen√ßa de valores de investimento entre esta√ß√Ķes de carregamento p√ļblicas e privadas reflete no pre√ßo da recarga em cada modalidade. O maior custo de investimento √© consequentemente direcionado para a tarifa de recarga das esta√ß√Ķes p√ļblicas, deslocando o consumidor para a op√ß√£o residencial. Desta forma, h√° um direcionamento de ordem econ√īmica da demanda por recargas nos domic√≠lios, apenas utilizando as esta√ß√Ķes p√ļblicas em situa√ß√Ķes de viagens de longas dist√Ęncias.

Esta tend√™ncia de diminui√ß√£o de demanda afeta significativamente a receita das esta√ß√Ķes p√ļblicas de carregamento, visto que a recarga comp√Ķe o principal produto oferecido por este neg√≥cio. O pre√ßo da eletricidade combinado com a demanda arrefecida resultam em receitas incompat√≠veis com os custos de implementa√ß√£o do neg√≥cio. Neste sentido, destaca-se que pa√≠ses europeus, como Portugal, Espanha e Alemanha, registram d√©ficits em suas esta√ß√Ķes de recarga p√ļblica, atualmente.

Enquanto n√£o h√° um aumento significativo da demanda pela modalidade de recarga r√°pida, √© necess√°ria uma diversifica√ß√£o do modelo de neg√≥cios que viabilize uma sustentabilidade econ√īmica. A exist√™ncia de esta√ß√Ķes p√ļblicas √© essencial para a difus√£o do mercado de VE e a expans√£o das suas vendas depende de uma infraestrutura m√≠nima presente. Em suma, espera-se um ciclo virtuoso entre VE e postos de recarga, que ser√° dado pela redu√ß√£o dos respectivos custos, vinculados diretamente √†s economias de escala.

2         Modelos de neg√≥cio para infraestrutura de recarga

A criatividade na elaboração dos modelos de negócios se evidencia na diversidade de formas de cobrança que existem atualmente na Europa. Nota-se que três modelos são aplicados em larga escala no continente:

  1. Pagamentos ad-hoc;
  2. Fidelização do cliente e livre acesso; e
  3. Geração de receitas de formas distintas.

O primeiro modelo, pagamentos ad-hoc, flexibiliza o acesso ao servi√ßo a todos os clientes interessados, disponibilizando o pagamento no local, atrav√©s de cart√Ķes de cr√©dito ou at√© mesmo dinheiro. O valor da cobran√ßa pode ser calculado por:

  1. Tempo da recarga (cobrado por minuto);
  2. kWh consumido; ou
  3. Fidelização por taxa fixa.

A cobrança por tempo busca otimizar o uso dos pontos de recarga para evitar congestionamentos, enquanto o modelo de eletricidade consumida é utilizado em locais menos disputados.

O modelo de fideliza√ß√£o do cliente efetua a cobran√ßa de um valor mensal em troca da utiliza√ß√£o da rede de esta√ß√Ķes da empresa, oferecendo, tamb√©m, uma gama de servi√ßos extras para os VE, como manuten√ß√£o, limpeza e assist√™ncia t√©cnica. Este modelo depende do alcance que a empresa possui dentro do pa√≠s, como a extens√£o da rede de postos e o reconhecimento da marca. Desta forma, a aplica√ß√£o deste modelo se restringe a grandes empresas consolidadas no mercado.

J√° o modelo de livre acesso, que consiste na parcela majorit√°ria dos postos europeus, n√£o estabelece cobran√ßa pela recarga. Apesar da aus√™ncia de receita atrav√©s da venda de eletricidade, existem outras raz√Ķes que tornam este modelo o mais comum no continente. A concess√£o da localiza√ß√£o da esta√ß√£o de recarga para outros servi√ßos, como redes varejistas e restaurantes, e a utiliza√ß√£o dos equipamentos para a√ß√Ķes de publicidade s√£o alternativas √† venda de eletricidade e comp√Ķem uma receita sustent√°vel.

Apesar do modelo de livre acesso ainda n√£o ser rent√°vel, ele √© o mais utilizado por possibilitar a expans√£o das esta√ß√Ķes de recarga a uma velocidade que estimula a difus√£o de VE. Assim, os agentes que possuem recursos para investir neste custo afundado no momento podem usufruir de uma rede extensa de postos em um futuro em que a demanda por este servi√ßo seja mais intensa. Destaca-se que a transi√ß√£o do modelo de livre acesso para modelos de fideliza√ß√£o j√° foi aplicada em alguns locais da Alemanha.

Independentemente do m√©todo de pagamento a ser escolhido, a grande diferen√ßa no modelo de neg√≥cios para esta√ß√Ķes de recarga reside no principal agregador de valor. Enquanto os postos para ve√≠culos √† combust√£o focam no combust√≠vel, a principal motiva√ß√£o das esta√ß√Ķes de recarga, nesta etapa de forma√ß√£o do mercado de VE, est√° relacionada aos servi√ßos prestados junto √† esta√ß√£o.

Cerca de 30% a 50% das recargas realizadas na União Europeia estão associadas com a aquisição dos serviços fornecidos pelo posto, um valor significativamente maior em comparação ao modelo de negócios de abastecimento de veículos à combustão interna. Isto abre espaço para um novo método de geração de receitas, assim como possibilita compartilhar o investimento para a implementação de uma estação de recarga.

Neste sentido, o dono de uma estação de recarga pode estabelecer uma parceria com o prestador de serviços em que uma parcela dos custos totais, fixos ou variáveis, será arcada por este, em troca de uma fatia dos direitos de propriedade do posto. O parceiro pode fornecer a localização e arcar com os custos de energia por um determinado período de tempo e, em contrapartida, usufruir de uma parte da receita com as recargas e do aumento dos serviços por ele fornecidos, viabilizado pela estação de recarga.

A combina√ß√£o entre direitos de propriedade e custos de investimento depende da atratividade do local. Locais com maior atratividade s√£o disputados tanto pelo parceiro quanto pelos donos das esta√ß√Ķes de recarga, enquanto os locais com menor intensidade de clientes n√£o despertam muito interesse por parte dos parceiros.

No entanto, locais de baixa atratividade s√£o essenciais na estrat√©gia de criar uma rede extensa de esta√ß√Ķes dentro de um pa√≠s e n√£o devem ser abandonados pelas empresas apenas por apresentar dificuldades de gerar receita. Os parceiros devem ser utilizados para mitigar os custos destes locais, arcando com os custos de opera√ß√£o e manuten√ß√£o, enquanto o dono da esta√ß√£o de recarga apenas investe em sua instala√ß√£o.

Na aus√™ncia de vontade de investir por parte de parceiros privados, governos e montadoras assumem a responsabilidade pela difus√£o de esta√ß√Ķes de recarga, como geradores de externalidades positivas para o segmento de VE. Pa√≠ses, como Portugal e Espanha, arcam com os custos de instala√ß√£o das esta√ß√Ķes e, tamb√©m, com os d√©ficits gerados pela baixa utiliza√ß√£o di√°ria, inspirados por uma vis√£o estrat√©gica de longo prazo, em que o crescimento do mercado de VE √© praticamente inquestion√°vel.

Nota-se que os grupos da ind√ļstria automobil√≠stica possuem clara percep√ß√£o de que as esta√ß√Ķes de recarga s√£o uma estrat√©gia de expans√£o da marca e do mercado de VE na Uni√£o Europeia e uma oportunidade √≠mpar de melhoria de imagem em ermos de desenvolvimento sustent√°vel. As principais montadoras da Europa j√° possuem investimentos em esta√ß√Ķes de recarga, como a Ionity, uma joint venture entre Ford, BMW, Daimler e Volkswagen, voltada para solu√ß√Ķes de eletro mobilidade.

3         Conclus√Ķes

A estruturação de modelos de negócios para a infraestrutura de recarga deve partir do pressuposto de que este serviço possui uma característica disruptiva, da mesma forma que os VE. O foco do negócio não deve ser apenas no fornecimento de combustível, mas na prestação de serviços ancilares para o veículo e para seu motorista, que agregam valor ao negócio e promovem a visibilidade da marca no país.

O atual registro de d√©ficits financeiros em esta√ß√Ķes de recarga deve ser um fator determinante de oportunidades para explorar outras fontes de receitas. A comercializa√ß√£o dos dados coletados durante a recarga para empresas anal√≠ticas √© uma oportunidade pouco explorada at√© o momento por esta√ß√Ķes de recarga, especialmente em um segmento que possui um forte grau de digitaliza√ß√£o. A utiliza√ß√£o de espa√ßos nos pontos de recarga para a√ß√Ķes de publicidade √© outra oportunidade, em um momento em que a sustentabilidade √© um tema muito valorizado pelas empresas no mercado.

Destaca-se que, t√£o importante quanto entender a transi√ß√£o de paradigmas, √© perceber que o investimento em esta√ß√Ķes de recarga exige e deve estar inserido em um planejamento de longo prazo, visando o horizonte futuro com um forte grau de difus√£o de VE. Neste caso, √© preciso uma combina√ß√£o de criatividade e paci√™ncia para encontrar m√©todos de gera√ß√£o de receita enquanto a demanda ainda n√£o atingiu um patamar econ√īmico, de modo em que as empresas se prepararem para um futuro no qual os protagonistas do segmento de infraestrutura de recarga possuir√£o uma forte vantagem em compara√ß√£o a seus competidores.

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