ūüé•Transi√ß√£o energ√©tica em sistemas isolados: o caso de Roraima

Por Nivalde de Castro, Mauricio Moszkowicz e André Alves.

Este artigo publicado pelo servi√ßo de informa√ß√£o Broadcast da Ag√™ncia Estado de S√£o Paulo em 29 de outubro de 2020 (Clique aqui acessar o PDF).

O pesquisador Andr√© Alves apresenta o artigo “Transi√ß√£o energ√©tica em sistemas isolados: o caso de Roraima”

O Brasil tem um dos maiores sistemas interligados de transmiss√£o de energia el√©trica do mundo, contando com linhas transmiss√£o de alta tens√£o totalizando mais de 150 mil km de extens√£o. √Č o Sistema Interligado Nacional (SIN). Esta rede assegura e garante o equil√≠brio din√Ęmico entre oferta e demanda, com elevada confiabilidade e complementariedade no espa√ßo geogr√°fico continental do Brasil.

Em grande parte da Regi√£o Norte do pa√≠s, por√©m, principalmente na imensid√£o da floresta amaz√īnica, a rede de transmiss√£o n√£o faz parte do SIN, em fun√ß√£o das longas dist√Ęncias e do baixo volume de energia el√©trica consumida. Esta √°rea √© tecnicamente denominada por sistema isolado. As cidades s√£o abastecidas atrav√©s de sistemas el√©tricos locais, com base em usinas termel√©tricas (UTE) a √≥leo diesel. Dada esta caracter√≠stica t√©cnica, a energia gerada √© cara e os n√≠veis de emiss√Ķes de gases efeito estufa (GEE) s√£o muito elevados.

Com a descoberta de grandes reservas de gás natural na Região Norte, abriu-se uma janela de oportunidade de transição energética das usinas a óleo diesel para usinas termelétricas a gás natural. Estas são mais eficientes por três fatores: maior poder energético do gás, menores custos de operação e manutenção e menor taxa de emissão de GEE.

Esta transi√ß√£o energ√©tica ‚Äď do diesel para o g√°s- tem como marco a implementa√ß√£o de uma UTE a g√°s natural no estado de Roraima. At√© 2019, grande parte da energia el√©trica consumida na capital Boa Vista e nas √°reas metropolitanas era importada da Venezuela, sendo complementada por gera√ß√£o de UTEs a diesel. Contudo, a crescente precariedade do fornecimento venezuelano, derivada da instabilidade pol√≠tica, imp√īs √† popula√ß√£o de Roraima a conviv√™ncia com uma alta frequ√™ncia de interrup√ß√Ķes e instabilidade no fornecimento de eletricidade.

Destaca-se que a deteriora√ß√£o da qualidade do fornecimento foi constatada pela metodologia de c√°lculo estabelecido pela ag√™ncia reguladora – ANEEL. Segundo levantamento realizado em 2019, a concession√°ria local de distribui√ß√£o ocupou a 52¬™ coloca√ß√£o dentre as 53 empresas analisadas pelo √ćndice ANEEL de Satisfa√ß√£o do Consumidor (IASC). As reclama√ß√Ķes dos consumidores eram, especialmente, em rela√ß√£o √† interrup√ß√£o frequente no fornecimento de energia e aos preju√≠zos causados pela sua baixa qualidade.

Com a suspens√£o definitiva do fornecimento da Venezuela em mar√ßo de 2019, o atendimento √† Roraima passou a ser feito exclusivamente pelo conjunto de UTEs a √≥leo diesel, impondo, simultaneamente, maiores custos (superiores R$ 1,5 bilh√£o por ano), altos n√≠veis de emiss√Ķes de GEE e piora na qualidade do fornecimento.

Frente a esta situação crítica, a ANEEL realizou em 2019 um leilão com o objetivo de atacar os três problemas, de modo a garantir a segurança e a confiabilidade energética e reduzir custos e os níveis de poluição. Como resultado do leilão, nove projetos foram contratados com preço médio de R$ 833/MWh, com a construção de plantas somando 263 MW. Os empreendimentos vencedores entrarão em operação já a partir de 2021.

Dentre os projetos contratados no leil√£o, merecem destaque as inova√ß√Ķes tecnol√≥gicas da UTE Jaguatirica II a g√°s natural, com pot√™ncia de 140MW, pertencente ao grupo Eneva. Esta planta permitir√° atender cerca de 70% do consumo total de Roraima, implicando em investimentos de R$ 1,9 bilh√£o.

O projeto articula a disponibilidade de g√°s do campo de Azul√£o, tamb√©m do grupo Eneva, localizado no estado do Amazonas, a 1.100 km de dist√Ęncia. O g√°s ser√° liquefeito no gate de extra√ß√£o e transportado em caminh√Ķes com isotanques at√© Boa Vista, onde ser√° regaseificado para acionar as turbinas da UTE de Jaguatirica II.

Especificamente em relação aos custos da energia gerada, o preço de referência de Jaguatirica II no leilão foi de R$ 798,17/MWh, inferior aos custos praticados no atual parque gerador de UTE a diesel, que supera os R$ 1.200/MWh.

O projeto traz para o Brasil esta inova√ß√£o tecnol√≥gica, abrindo a possibilidade de ser replicado para outras cidades e regi√Ķes do sistema isolado, que enfrentam os mesmos problemas de qualidade, custos e emiss√£o de GEE.

Na compara√ß√£o com o parque t√©rmico a diesel , h√° um ganho expressivo do ponto de vista ambiental. Estimativas indicam que a UTE de Jaguatirica II poder√° reduzir em 35% o n√≠vel de emiss√Ķes de CO2 em Roraima, o que equivale a evitar emiss√Ķes na ordem 180.000 toneladas de CO2/ano.

Do ponto de vista da segurança e qualidade do suprimento de energia elétrica, o projeto do grupo Eneva trará impactos positivos, na medida em que aumentará a qualidade e a confiabilidade do fornecimento de energia elétrico.

Este conjunto de benef√≠cios, em termos de custos, qualidade e redu√ß√£o de emiss√Ķes de GEE, s√≥ est√° sendo poss√≠vel de se alcan√ßar em fun√ß√£o do consistente marco regulat√≥rio e do importante instrumento de pol√≠tica energ√©tica que s√£o os leil√Ķes. Gra√ßas √† seguran√ßa jur√≠dica dada pelos contratos derivados dos leil√Ķes, os agentes t√™m seguran√ßa em realizar investimentos, como da UTE de Jaguatirica II, com inova√ß√Ķes tecnol√≥gicas que ir√£o permitir, por um lado, ampliar a oferta de energia el√©trica com menores custos e com reflexos diretos no desenvolvimento socioecon√īmico da regi√£o. E, por outro lado, abre-se um vetor de transi√ß√£o energ√©tica ‚Äď do diesel para o g√°s natural – positivo e replic√°vel para os sistemas isolados da Regi√£o Norte.

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