ūüé•Uma vis√£o estrat√©gica de longo prazo para a energia

Por Nivalde de Castro, e André Clark.

Este artigo foi publicado pelo Valor Econ√īmico em 25 de novembro de 2020 (Clique aqui acessar o PDF).

Andr√© Clark apresenta o artigo “Uma vis√£o estrat√©gica de longo prazo para a energia”

O ano de 2020 imp√īs adversidades e imprevistos singulares advindos da pandemia. As atividades econ√īmicas, sociais, familiares e culturais tiveram que ser redefinidas quase que instantaneamente para se adaptar a um novo e ins√≥lito cen√°rio. Desta forma, s√£o muito benvindas as iniciativas que estabelecem um olhar estrat√©gico para um futuro al√©m da pandemia, principalmente no setor de energia, um dos principais vetores do progresso na sociedade.

Neste contexto, deve-se destacar o Plano Nacional de Energia de 2050 (PNE), elaborado pela Empresa de Pesquisa Energ√©tica (EPE), o qual, a partir de um conjunto complexo de estudos e de um profundo di√°logo com todos os atores (academia, operadores e Estado), tra√ßa par√Ęmetros, cen√°rios e estrat√©gias fundamentais para os pr√≥ximos 30 anos, algo raro, mas importante para todas as dimens√Ķes do desenvolvimento econ√īmico e social.

O PNE assume uma premissa b√°sica de compromisso firme com a sustentabilidade ambiental no √Ęmbito do setor de energia, aderente aos objetivos globais da descarboniza√ß√£o. Nesta dire√ß√£o, o Plano foge de ideologias e foca no interesse p√ļblico, partindo de uma das matrizes energ√©ticas mais limpas do mundo, e reafirma a prioridade no aproveitamento dos recursos renov√°veis, onde o Brasil tem um imenso potencial competitivo. Adicionalmente, o documento tamb√©m acerta ao indicar aprimoramentos nas pol√≠ticas e nos instrumentos de competi√ß√£o entre as fontes geradoras e novas tecnologias.

O PNE consolida sua posi√ß√£o no crescimento acelerado das fontes intermitentes, e√≥lica e solar, em fun√ß√£o da maior competitividade derivada da redu√ß√£o dos custos e vinculada aos ganhos de escala das cadeias produtivas. Al√©m disso, o Plano examina o risco associado ao fato da produ√ß√£o de energia depender da disponibilidade de abund√Ęncia de luz solar e ventos, que n√£o s√£o necessariamente coincidentes com os momentos de demanda. Tanto esta caracter√≠stica t√©cnica quanto a mitiga√ß√£o desses riscos, seja pela complementariedade de outras fontes, como o g√°s natural, ou pelo conhecimento granular das demandas e de novas tecnologias de armazenamento, s√£o consideradas de forma assertiva.

Deve-se assinalar que o Plano considerou as experi√™ncias que j√° est√£o ocorrendo em outros pa√≠ses, tirando li√ß√Ķes e trazendo-as √† realidade e especificidade brasileira, o que permitiu projetar uma matriz energ√©tica at√© 2050 mais consistente e aderente √† din√Ęmica mundial.

Outra contribuição importante a destacar do PNE, com foco em energia limpa, é o reconhecimento do potencial do hidrogênio, o qual, contudo, merece uma abordagem sob um novo prisma. Estudos de agências internacionais (IEA e Irena) e de programas de energia de vários países indicam que o hidrogênio verde, aquele produzido exclusivamente com energias renováveis, será o principal vetor para atingir a meta de carbono neutro até 2050.

Neste cen√°rio de transi√ß√£o energ√©tica, o Brasil tem condi√ß√Ķes efetivas de ser um grande produtor e exportador do que ser√° a nova commodity global. O cen√°rio √© muito favor√°vel ao Brasil pelas vantagens competitivas em rela√ß√£o a outros pa√≠ses, tendo em vista a sua dimens√£o continental, localiza√ß√£o geogr√°fica, matriz el√©trica renov√°vel e, com destaque, o seu consistente marco regulat√≥rio, que mitiga os riscos de investimentos intensivos e de longo prazo. Desta forma, o PNE pode firmar com mais detalhes as bases estrat√©gicas do hidrog√™nio verde para posicionar o pa√≠s como um dos principais players da transforma√ß√£o energ√©tica mundial.

Outro ponto sensível é a questão da inteligência artificial. Um exemplo disso é a expansão das fontes renováveis intermitentes na matriz, a qual, vinculada à tendência inexorável da
liberalização do mercado de energia elétrica, irá intensificar e aprofundar a digitalização do setor elétrico. A necessidade de controle em tempo real do mercado livre de energia com preços horários irá permitir uma ampla utilização de dados, com a tendência de ganho de valor nos processos decisórios. Assim, o tempo de latência entre a decisão de compra e venda da energia e a sua produção será muito reduzida.

Neste sentido, o preço horário e o mercado livre de energia elétrica irão requerer um forte
entendimento dos equipamentos de consumo, produ√ß√£o e transmiss√£o. Os dados referentes a esta nova din√Ęmica de mercado ser√£o valorizados e exigir√£o inova√ß√Ķes regulat√≥rias para garantir uma base m√≠nima de transpar√™ncia e simetria de informa√ß√Ķes.

Por √ļltimo, este novo e promissor panorama do setor el√©trico exigir√° uma aten√ß√£o espec√≠fica com a seguran√ßa cibern√©tica, em especial referente √† necessidade de uma pol√≠tica de prote√ß√£o dos dados e sistemas digitais de energia. Neste aspecto, o PNE pode examinar mais a fundo e sinalizar medidas mais r√≠gidas para orientar e preparar os principais players do setor, os agentes econ√īmicos, o regulador e o operador do sistema, a formularem planos estrat√©gicos para que o mercado reaja nessa dire√ß√£o com maior √™nfase e seguran√ßa.

√Č importante ressaltar que o esfor√ßo da EPE, que consolidou um planejamento depois de quase 13 anos sem uma revis√£o dessa magnitude, √© de extrema import√Ęncia, ao indicar cen√°rios e par√Ęmetros para a transi√ß√£o energ√©tica do Brasil. Adicionalmente, atesta-se a maturidade do marco institucional do setor el√©trico, devendo servir de inspira√ß√£o e exemplo √† realiza√ß√£o de planejamentos desse tipo em outras √°reas, como educa√ß√£o, log√≠stica, saneamento, sa√ļde, etc. Mais do que isso, o PNE valoriza a competi√ß√£o saud√°vel e construtiva entre as fontes para minimizar o custo e, em √ļltima inst√Ęncia, beneficiar a sociedade brasileira

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