ūüé•O Brasil na Transi√ß√£o Energ√©tica para o Hidrog√™nio Verde

Por Nivalde de Castro, Ana Carolina Chaves e Adely Branquinho Dores.

Este artigo foi publicado no jornal Valor Econ√īmico em 21 de janeiro de 2021 (Clique aqui acessar o PDF).

Nivalde de Castro apresenta artigo “O Brasil na Transi√ß√£o Energ√©tica para o Hidrog√™nio Verde”.

O objetivo deste artigo √© demonstrar que o Brasil possui condi√ß√Ķes concretas de assumir um papel de predomin√Ęncia no processo de transi√ß√£o energ√©tica (PTE) mundial, no qual o hidrog√™nio verde (H2V) ir√° substituir o petr√≥leo e o g√°s natural, como principal recurso energ√©tico, at√© 2050.

A crise do petr√≥leo de 1973 instaurou um cen√°rio de risco de seguran√ßa de suprimento, com o aumento e a instabilidade do pre√ßo do barril, iniciando o PTE. E, a partir da ECO 92, as preocupa√ß√Ķes com o aquecimento global definiram uma nova din√Ęmica, firmando os dois vetores principais deste processo: seguran√ßa energ√©tica e sustentabilidade ambiental.

O PTE mundial √© medido pelo aumento da participa√ß√£o das fontes renov√°veis na composi√ß√£o da matriz energ√©tica. A velocidade da transi√ß√£o √© muito lenta, em fun√ß√£o basicamente de dois elementos. O primeiro, de car√°ter econ√īmico, est√° associado √† base produtiva da energia, composta por ativos capital intensivos, de longo prazo de matura√ß√£o e que n√£o foram totalmente amortizados. O segundo, mais crucial, √© a garantia da seguran√ßa nacional de suprimento, priorizando-se, ao m√°ximo, o uso dos recursos energ√©ticos existentes em seu territ√≥rio.

A Uni√£o Europeia (UE) √© muito dependente da importa√ß√£o de recursos energ√©ticos, ficando exposta ao risco de suprimento. Por isso, adotou pol√≠ticas p√ļblicas com metas ambiciosas para a transi√ß√£o energ√©tica, tornando-se o principal player mundial da sustentabilidade ambiental. Deste modo, enquanto que, em 2000, somente 14% da energia el√©trica produzida no mundo e na UE era gerada por fontes renov√°veis, em 2018, o mundo avan√ßou para 25% e a UE atingiu 32%. Esta performance europeia decorreu dos programas de incentivos √†s energias e√≥lica e solar, as quais, por serem recursos genuinamente nacionais, reduziram o risco de suprimento e, ao mesmo tempo, promoveram sustentabilidade.

Um novo vetor veio para acelerar o PTE, a pandemia do corona v√≠rus, provocando uma das mais profundas recess√Ķes econ√īmicas dos √ļltimos 90 anos. Para super√°-la, os pa√≠ses mais ricos est√£o adotando estrat√©gias de desenvolvimento econ√īmico focadas na descarboniza√ß√£o, mediante vultosos investimentos em tecnologias verdes. S√£o programas que ir√£o alterar de forma definitiva a matriz energ√©tica e, o mais estrat√©gico, criar novas cadeias produtivas de bens e servi√ßos, gerando empregos e aumento da renda, com a redu√ß√£o das emiss√Ķes de CO2.

Um exemplo √© a muta√ß√£o da ind√ļstria automobil√≠stica mundial dos ve√≠culos a combust√£o para ve√≠culos el√©tricos. Esta din√Ęmica, que integra governos, empresas e centros de pesquisa, est√° criando um c√≠rculo virtuoso com novos produtos, processos e servi√ßos, atrav√©s de maci√ßos investimentos em tecnologias verdes.

Destaca-se que o sucesso da transição energética é inteiramente depende da disponibilidade de fontes renováveis para efetivar a descarbonização. Porém, como a quase totalidade dos países mais ricos não possui potencial de recursos energéticos renováveis, há a necessidade de um novo recurso para assumir o papel do carvão, no Século XIX, e do petróleo, no Século XX. Este recurso energético renovável será comercializado no mercado mundial para atender a demanda crescente de energia imposta pelo PTE.

O planejamento energ√©tico identifica o hidrog√™nio (H2) como o recurso capaz de atender esta demanda e assumir uma posi√ß√£o predominante na matriz energ√©tica mundial at√© 2050. Os desafios tecnol√≥gicos, por√©m, s√£o grandes para a sua produ√ß√£o, transporte e armazenamento, mas investimentos e motiva√ß√Ķes sobram.

Um fator técnico relevante é que a produção mais eficiente do H2 é intensiva em energia elétrica. Segundo os planos da UE, em uma primeira fase, o H2 será produzido através da reforma do gás natural (H2 azul). Porém, em seguida, o H2 deverá ser produzido com energia elétrica derivada de recursos renováveis (eólico e solar), na forma de H2V para viabilizar a descarbonização prevista.

Neste cen√°rio, ser√° formado um mercado mundial da commodity H2, com uma estrutura bem mais competitiva e favor√°vel aos pa√≠ses ricos, dado que qualquer pa√≠s capaz de produzir energia el√©trica poder√° produzir e exportar de H2. Neste novo contexto energ√©tico mundial, o Brasil tem condi√ß√Ķes concretas de tornar rapidamente um grande exportador de H2V, especialmente por dois fatores.

O primeiro, e mais relevante, é o seu potencial de energia eólica e solar, impar em relação ao resto do mundo. Estimativas preliminares da EPE (PNE 2050) indicam um potencial eólico de 700 GW offshore e 353 GW onshore, enquanto que, em dezembro de 2020, a capacidade instalada desta fonte atingiu 16 GW. Já o potencial da energia solar é de 307 GWp, com pouco mais de 3 GWp instalados, hoje. Destaca-se que a capacidade instalada total de geração do Brasil em fins de 2020 era de 165 GW (ONS).

O segundo fator √© a estrutura institucional que contempla uma pol√≠tica energ√©tica com planejamento de longo prazo (EPE), opera√ß√£o centralizada do sistema el√©trico que atende a carga espacialmente dispersa no territ√≥rio brasileiro, marco regulat√≥rio consistente e independente (ANEEL), eficiente sistema de compensa√ß√£o de contratos (CCEE) e padr√£o de financiamento consolidado (BNDES). Este marco institucional, desenvolvido desde 2000, conseguiu garantir a amplia√ß√£o da capacidade geradora e de transmiss√£o, via leil√Ķes competitivos, firmando contratos de longo prazo, indexados, com previsibilidade de receita e seguran√ßa jur√≠dica, atraindo os investimentos necess√°rios com predomin√Ęncia
crescente de agentes privados.

Nestes termos, o Brasil possui plenas condi√ß√Ķes de assumir uma posi√ß√£o de lideran√ßa no mercado mundial da nova commodity energ√©tica, o hidrog√™nio verde, em fun√ß√£o de seu imenso potencial de fontes renov√°veis e modelo de contrata√ß√£o seguro para novos investimentos.

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