Mobilidade elétrica nos Estados Unidos no contexto da COVID-19 e do novo Plano de Energia do Governo Biden

Por Carolina Grangeia, Luan Santos e Bianca Castro.

Este artigo foi publicado na Agência CanalEnergia em 09 de fevereiro de 2021 (Clique aqui acessar o PDF).

O instrumento mais poderoso para acelerar a disponibilidade de veículos elétricos (VEs) é a estrutura regulatória1. Assim, a promoção de ações e políticas governamentais possui um grande potencial para superar as barreiras iniciais relacionadas aos custos mais altos, a
problemas de segurança e autonomia dos VEs, à falta de conscientização da população e à disponibilidade insuficiente de modelos2. Neste sentido, o presente texto busca expor potencialidades do mercado de veículos elétricos no contexto da COVID-19 e analisar o caso dos Estados Unidos no que diz respeito à promoção de políticas de fomento aos VEs por meio do novo Plano de Energia norte-americano, anunciado pelo Governo de Joe Biden.

Um breve histórico sobre o papel do governo norte-americano e da indústria

Nos anos 1990, a introdução do programa Zero-Emission Vehicle (ZEV) pela California Air Resources Board (CARB) firmou a indústria de VEs e abriu espaço para novas iniciativas por todo o país. Em 2018, o CARB votou por estender o Padrão de Combustível de Baixo Carbono (LCFS) até 2030 e dobrar a meta de redução da intensidade de carbono do programa de 10% para 20%3.

No âmbito federal, as principais leis da temática de veículos elétricos nos Estados Unidos foram: (i) Energy Policy Act (1992 e 2005), que incentiva a renovação da frota de veículos; (ii) Energy Independence and Security Act (EISA) (2007), que incentiva VEs nos sistemas de transporte; (iii) Clean Energy Act (2007), que estipula parâmetros de redução de emissões de CO2 dos veículos; (iv) American Recovery and Reinvestment Act (Recovery Act) (2009), que, assim como o EISA, também incentiva VEs nos sistemas de transporte; e (v) Public Law 114-94/2015, que, entre outras diretrizes, libera a circulação de veículos movidos a combustível não fóssil em faixas exclusivas de trânsito e os isenta do pagamento de pedágios2; 4; 5.

Nos EUA, além das políticas públicas de incentivo a veículos elétricos, a indústria é parte construtiva do modelo de negócios e sua interação com o governo desenha projetos de pesquisa e desenvolvimento que buscam expandir a capacidade produtiva e fomentar novas iniciativas voltadas à mobilidade e aos créditos fiscais, como incentivo ao consumo2. Neste sentido, as preferências para os consumidores de VEs variam amplamente e a maior disponibilidade de modelos e quantidade se tornam pré-requisitos para uma maior adoção.

O impacto da COVID-19 e as oportunidades para expansão da mobilidade elétrica

Em 2019, o estoque norte-americano de VEs representou 20% da frota global, com 880 mil unidades à bateria e 570 mil unidades híbridas plug-in. O país possuía o terceiro maior mercado de veículos elétricos, atrás da China, com 2,58 milhões de unidades à bateria e 770 mil unidades híbridas plug-in, e da Europa, com 970 mil e 780 mil unidades, respectivamente, com destaque para a Noruega6.

O ano de 2020, no entanto, foi atípico, em decorrência do surgimento da COVID-19. O transporte público urbano em todo o mundo, incluindo ônibus, enfrenta enormes desafios para oferecer serviços de alta capacidade e acessíveis, garantindo a segurança e a saúde dos passageiros. Além disso, existe um risco temporário de a população optar pela utilização de veículos individuais, mesmo que, em cidades mais densas e em desenvolvimento, os veículos de massa ainda não sejam facilmente substituíveis. Portanto, o futuro do transporte público, em geral, e dos ônibus elétricos, em particular, será equilibrado entre os impactos da pandemia da COVID-19, a capacidade geral do sistema de transporte urbano de cada país e o apoio governamental contínuo6.

No atual contexto de pandemia, foram identificadas oportunidades de eletrificação, particularmente a partir da redução global de 6,4% das emissões de CO2, em relação a 2019. Destaca-se que o setor da aviação foi o mais afetado , com uma redução de 48% das emissões em comparação ao total de 2019. Nos Estados Unidos, registrou-se um decréscimo das emissões de 12,9%, na Europa (somado ao Reino Unido), de 7,7%, e, na China, de 1,4% (Figura 1). Especialistas correlacionam a baixa redução das emissões da China à rápida recuperação no controle do surto da COVID-197.

Essas oportunidades podem ser aproveitadas nas próximas décadas, mesmo em modais de
difícil redução de emissões, como caminhões pesados, aviação e navegação, tendo em vista que as vendas de caminhões elétricos no mundo bateram recorde em 2019, com mais de 6 mil unidades. Além disso, carregadores de alta potência vêm sendo desenvolvidos, buscando a padronização global, e pesquisas voltadas ao conceito de carregamento dinâmico, bem como a gradual exigência de eletrificação das operações de transporte marítimo nos portos por legislação dos EUA, da China e da Europa, vêm avançando. Com isso, nota-se que a infraestrutura de carregamento continua assumindo grande importância e se torna pauta principal em diversos países6.

O Plano de Energia do Governo Biden

As respostas dos diversos governos à COVID-19 influenciam diretamente no ritmo da transição para veículos elétricos, perspectiva sustentada, principalmente, pela China e pela Europa. Ambos os mercados mantiveram os subsídios nacionais e locais: a China estendeu sua política de subsídios até 2022, prorrogando o mandato de veículos de novas energias (New Energy Vehicle Mandate Policy), já a Europa enrijeceu os seus padrões de emissão de CO2.

Evidencia-se, portanto, sinais de que as medidas de recuperação nos setores de transportes e energia para enfrentar a crise pós-COVID-19 e manter os acordos climáticos se concentrarão na eficiência e no custo dos veículos, em geral, e na eletrificação, em particular6.

Recentemente, o novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, retomou a agenda climática, recolocando o país no Acordo de Paris, o que, para algumas lideranças, representa um movimento capaz de abrir oportunidades para diversos setores, como o etanol brasileiro, além de reforçar outras tendências em prol do desenvolvimento sustentável8.

No entanto, um dos componentes centrais da nova agenda climática americana será voltado ao Plano de Energia, no qual, entre outras propostas, se encontra a melhoria da infraestrutura nacional de VEs e a geração de empregos no setor, seguindo a tendência europeia e chinesa. Neste sentido, pretende-se instalar 500.000 estações de recarga até 2030, encorajando a venda de até 25 milhões de carros e picapes elétricos com tal expansão9. Assim, o ambicioso pacote ambiental anunciado por Biden busca, por exemplo, interromper as perfurações de petróleo e gás em terras federais, bem como os subsídios a combustíveis fósseis.

Além disso, o novo governo planeja (i) aumentar os incentivos fiscais à compra de VEs, estendendo-os aos consumidores de menor renda, que tendem a comprar veículos à combustão interna devido ao preço; (ii) implementar um programa nacional a partir do qual os consumidores recebem incentivos para substituir seus veículos à combustão interna por veículos elétricos (cash for clunkers); (iii) estreitar e alavancar as relações com a indústria automobilística, exigindo que todas as regulamentações de transporte limpo priorizem os veículos fabricados nos EUA (individuais e frotas públicas) e oferecendo incentivos para que os fabricantes se voltem à produção de componentes próprios para VEs; (iv) incentivar a eletrificação de frotas de transporte público federal, estadual e local; e (v) investir no desenvolvimento de tecnologias de bateria para armazenar energia e alimentar VEs, criando um círculo completo de tecnologia de veículo para rede, a exemplo da recente decisão de exploração da mina de lítio Thacker Pass, em Nevada.

Observa-se que essas diretrizes almejam, principalmente, conservar 30% das terras e águas do país nos próximos 10 anos, dobrar a produção de energia eólica e alterar a matriz energética do setor de transportes com foco na mobilidade elétrica9; 10; 11; 12.

Estes investimentos corroboram com a meta dos EUA de eliminar a poluição por combustíveis fósseis no setor de energia até 2035 e na economia em geral até 2050 (emissão zero), além de auxiliar na redução da lacuna referente às lideranças mundiais de VEs12. No entanto, para atingir tais objetivos, será necessário apoio do Congresso, pois uma parcela grande da infraestrutura elétrica de recarga corresponde à rede privada. Nota-se, ainda, que a cobertura desta infraestrutura em regiões de baixa renda e em corredores interestaduais rurais é limitada, porém a expansão da rede pública reduziria esta polarização e facilitaria o deslocamento entre as regiões9.

Considerações finais

De fato, os Estados Unidos buscam alternativas de energia cada vez mais limpas, em um período no qual a gestão energética é uma das principais pautas nas discussões entre governos e se insere, também, como uma das soluções aos diversos problemas a serem enfrentados no pós-pandemia, no contexto das mudanças climáticas e da recuperação econômica. É necessário a convergência de políticas públicas, ações corporativas e planos voltados aos consumidores, visto que uma abordagem centrada no usuário auxilia nas estratégias das empresas e promove uma adaptação mais rápida à transição.

Destaca-se a importância dos VEs nos EUA no que tange à segurança e à independência energética, à problemática ambiental e ao fortalecimento da indústria. Com isso, o país está prestes a inovar em matéria de mobilidade elétrica com as novas iniciativas do governo Biden, tornando-se modelo para diferentes países em desenvolvimento ou que dependam da política energética norte-americana.

Por fim, conclui-se que, observando a experiência dos EUA, os incentivos aos fabricantes de veículos elétricos e a conexão com o consumidor, além do forte apelo à infraestrutura e à padronização de carregamento, se mostram peças-chave ao desenvolvimento da economia de baixo carbono com foco na eletromobilidade.

Referências:

1 – https://cdn.ihsmarkit.com/www/prot/pdf/0220/320097422-0220-MFT-AUT-CWAutowhitepaper-BEV-Final-LowRes.pdf
2 – http://www.promobe.com.br/library/estudo-de-governanca-e-politicas-publicas-paraveiculos-eletricos/
3 – https://ww2.arb.ca.gov/our-work/programs/zero-emission-vehicle-program/about
4 – https://www.epa.gov/laws-regulations/summary-clean-air-act
5 – https://theicct.org/sites/default/files/publications/EV-cities-update-aug2020.pdf
6 – https://www.iea.org/reports/global-ev-outlook-2020
7 – https://www.nature.com/articles/d41586-021-00090-3
8 – https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/2021/01/21/biden-recoloca-eua-no-acordo-deparis-como-isso-afeta-o-brasil
9 – https://www.bloomberg.com/news/articles/2020-12-02/joe-biden-plan-to-fight-climatechange-could-sell-25-million-electric-cars
10 – https://www.forbes.com/wheels/features/biden-2-trillion-plan-cars-jobs-pollution/
11 – https://www.bostonherald.com/2021/01/24/lithium-mine-okd-in-trumps-last-days-mayboost-biden-energy-plan/
12 – https://apnews.com/article/joe-biden-climate-change-executive-ordere465713362ebbd82bf98acb65a66ea84

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